
Símbolo dos Médicos (Fonte: Wikipédia)
Hoje foi dia de odiar os médicos. Creio que nunca mencionei aqui anteriormente mas tenho mágoas e questões pessoais muito mal-resolvidas com relação à figura que tenho desses profissionais. Infelizmente a cada dia que passa, conforme vou entrando mais na área da saúde (embora não tão no âmbito técnico e teórico convencional), fico entendendo e decobrindo casos e mais casos sobre suas pessoas e suas grandes trapalhadas profissionais.
Eu imagino que deve ser preciso uma cisão muito grande de personalidade ou uma capacidade de abstração emocional muito grande pra utilizar um bisturi em alguém. Você cortaria uma pessoa numa boa? Eu não. Então me faz crer em algo que li recentemente e diz que os médicos são aqueles que não raro mais têm dificuldades em aceitar doenças em si e nos seus familiares. Ou seja, quanto mais dificuldade, maiores as defesas, e maior esta aparente facilidade em lidar com a dor humana.
Também sei o quanto posso ser injusto nesta generalização. Infelizmente o meu sentimento não se governa tanto pela minha cabeça, e me faz muito mal tudo que toque este assunto. Minha aula hoje foi um martírio emocional interno (estudo na sexta à tarde com uma turma da medicina).
Eu não sei como faria pra resolver estas questões dentro de mim. Quando eu tinha uns 15 anos, fazia tratamento pra emagrecer com um médico. Um dia ele me abordou sobre a minha sexualidade, se eu já tinha me decidido se gostava de homem ou de mulher. Foi uma experiência bastante traumática pra mim que sempre tive problemas com relação à sexualidade e afetuosidade, e isso quem acompanha aqui sabe pois já contei sobre mim naquela época.
Creio que o conhecimento pobre tenha ajudado minha bisavó também a ter o derrame que a levou à morte em 3 meses. Hoje em dia vejo que nenhum deles levou em conta a totalidade de sintomas dela, nem os remédios que tomava e que eram indicados se acumulando uns sobre os outros. Por mal-atendimento em seu último ano de vida, após uma queda, ficou com uma pequena deformidade na região do pulso no encaixe com a mão porque havia sido imobilizada de maneira errada.
Conheci uma senhora que pedia esmolas em Pelotas no calçadão. Um dia notei que ela só ficava sentada. Naquele dia me aproximei da moradora de rua idosa e pequena, e conversando soube que também estava sem poder caminhar direito por erro na hora do tratamento de uma queda.
Um dia desses estive no hospital onde pacientes bastante agoniados aguardavam a boa-vontade do atendente da fila do SUS para abrir o espaço de sentar e conferir as consultas. No corredor estava uma maca coberta por um lençol onde havia uma forma que lembrava um corpo. Senhoras e senhores ali, notei, estavam bastante apreensivos enquanto os grandiosos profissionais passavam sorridentes e jocosos diante do povo cujo nervosismo de estar doente, ainda aumentava.
Eu poderia ficar listando aqui coisas que já me atingiram profundamente. E entre elas o que aconteceu entre namorado e um ortopedista de florianópolis (casado e pai de dois filhos) num espaço de clínica. Isso também veio a contribuir para o meu ódio, raiva, revolta. Acho que se eu me encontrasse com Focault, dar-nos-íamos muitíssimo bem.
São por estas e outras tantas, que me desgosta estar próximo desta classe e desta área em certos aspectos. E me desgosta cada dia na tv que vejo cobranças indevidas de exames gratuitos, maus-tratos e toda arrogância de diversas pessoas que são no mínimo burras e se atrevem a impor pontos-de-vista pessoais. Uma pesquisa que li certa vez dizia que a maioria dos médicos dá conselhos pessoais a pacientes a partir de sua própria vida, e isso aborrecia bastante as pessoas.
Ah, sim, claro… E acho muito bonito que o juramente de Hipócrates se transforme em piada em troca de algumas centenas de reais, para fazer um atendimento porco e depois pôr a culpa unicamente na má-administração pública, no sistema de saúde ou nos demais profissionais de área da saúde.
Se algum dia algum médico ler isto aqui, eu peço desculpas caso se sinta atinjido. Por outro lado, se isso aconteceu é melhor entrar em contato com o sentimento: Nada nos incomoda se não há um respaldo dentro de nós. Se alguém te chama de algo que sabe que não é verdade, normalmente você não se importa. Porém se entram outras coisas em jogo, bem, aí é outra história.
Por outro lado não peço desculpas alguma. Primeiro pelo sofrimento alheio, segundo pelo meu sofrimento pessoal e o meu direito de sentí-lo e falar sobre ele… E em terceiro para que esse relato que podia ser muito mais longo e exemplificado aos milhares, sirva de inspiração pra que seja feito da saúde algo digno, um exercício humano.
Quando for usar seu bisturi, ou pôr um membro num lugar, ou ainda fazer uma consulta sem nem olhar na cara, lembre que ali na sua frente podia ser seu pai, sua mãe, seu irmão… E o pior: Podia estar sendo atendido por alguém tão anti-ético quanto você.
E não esqueçam de lembrar seus pacientes que existe um princípio de autonomia na Bioética e que ele tem direito de recusar o tratamento, o medicamente, e pedir encaminhamento para outro profissional ou terapêutica. Ninguém tem obrigação de se submeter aos caprichos egóicos de qualquer um.
Trate de marcar suas consultas direito: Ninguém tem obrigação alguma de esperar seu almoço prolongado ou os vendedores de empresas farmacêuticas saírem, para você entrar na consulta às vezes horas depois do seu horário marcado. E um aviso: Isso é passível de processo por danos morais segundo meu nobre assessor jurídico, um bom e grandioso cavalheiro.
Adcione no seu conhecimento de bioética algo além da valorização da vida: O respeito pelo ser humano. Você não é Deus. Você não pode fugir de saber que o coração que bate em sua mão porta uma essência, uma personalidade, uma história.
Àqueles que foram vítimas de erros ou maus-tratos de qualquer tipo, aconselho-os a procurarem aconselhamento judicial e fazerem valer seus direitos. Já se passa muito tempo de impunidade e medo – basta!
E que Deus cuide de nós: Cobaias dos homens, nas mãos de simples homens, como nós!