Nunca imaginei que um dia eu escreveria sobre isso. De fato, eu nunca escrevi.
Hoje, porém, estava voltando de mais um dia de conspirações na casa da Nayara e pensava na vida. Sempre que vejo a novela que está prestes a terminar, mais exatamente o casal Maria Paula – Ferraço (“Duas Caras”, Globo), eu sinto algo mexendo dentro de mim. A possibilidade do retorno dos dois, as circunstâncias, sempre tocou intimamente dentro do meu ser.
E então rememorei o caso de SC, mas mais especificamente lembrei da primeira pessoa que eu amei. Se foi amor propriamente dito ou qualquer outra coisa eu não julgo, mas que eu considerei e marcou, certamente foi.
Eu tinha 14 anos, fiz 15 naquela época de segundo ano do Ensino Médio. Era extremamente tÃmido, retraÃdo. Não saÃa de casa, não tinha amigos, e dormia na mesma cama que a minha mãe. Minha bisavó era viva. No final do primeiro ano eu tinha feito algumas amizades de sala, só que elas acabaram indo pra outros turnos, alguns rodaram e então eu estava praticamente sozinho. Foi muito infeliz este começo.
Sempre fui um bom aluno, exceto pelos empurrões de barriga do primeiro ano, que também foi uma mudança de escola pra mim (o colégio marista que fiz o ensino fundamental não tinha ensino médio). No segundo me restava pouco senão estudar… Tive bons professores nessa época. Ainda estava bem gordo (no inÃcio de janeiro eu pesava mais de 110 kg). Com o tempo fui emagrecendo, ao longo do ano…
Fiz amizade com um menino que era meio estranho. As pessoas tinham pena e ao mesmo tempo caçoavam dele. Primeiro porque ele não era adepto do desodorante. Segundo porque era um pouco lento, e à s vezes se indignava com motivos bem nada-a-ver. Terceiro, a pena, era porque ele vinha sempre com roupas muito simples pra aula: Calças de abrigo que mal lhe serviam – ficando com as canelas de fora, seu tradicional chinelo modelo havaiana branco com azul, e poucos agasalhos.
Não foi esse meu primeiro amor, mas foi o meu primeiro contato. Eu lembro que sempre tinha muito pânico dos meninos do fundo, que me respeitavam até, mas ao mesmo tempo desejo de me enturmar e eu simplesmente não conseguia fazer isso de maneira nenhuma.
Na hora do intervalo eu ficava lá, dentro da sala, como se estivesse refugiado. Me afligia estar no meio e caminhando entre as pessoas da minha idade – na verdade mais velhas, porque eu era o mais novinho.
Esse amigo que vou chamar de X era amigo de outro rapaz, Y. Eu, particularmente, não me dava com Y, e até mesmo nutria uma boa dose de antipatia por ele assim como desprezo pelos meninos de classe (outro sentimento conflituoso). Não tinha amigas mulheres nessa época.
Foi então que um belo dia o X falta a aula (caso raro), e por um golpe do destino eu acabo sentando do lado do Y numa aula meio vazia. Começamos a falar sobre… Videogame! E aà criou-se uma pequena e frágil amizade a partir dali.
Como eu não tinha vida extra-classe, eu passei a conversar eventualmente com Y e X nos intervalos de aula e só isso. Também eu não praticava educação fÃsica – tinha pânico de pensar nisso. Lembro de Y sempre comendo cachorro-quente, na sala… Brincando com a mes do professor, pondo-a no colo… Com sua calça jeans, seu abrigo de academia. Falando sobre seu treino de luta ou de musculação.
O cabelo dele era raspado e claro. Os olhos castanhos, um sorriso fácil e largo. Traços fortes… Constituição fÃsica forte, um pouco mais alto que eu na época. Tinha um ar especial.
Durante todo aquele ano eu convivi com ele sem pensar em nada. Até que vieram as férias e chegou o terceirão – não éramos mais colegas. Nesse ano ocorreram umas mudanças… Emagreci mais, fiz um curso de computação nas minhas tardes, fiquei mais aberto, fui representante (na verdade meio figurativo) de turma, criei simpatia com colegas. Mas ainda era o menino que não se misturava, fugindo e ficando recluso no intervalo. Tive uma amiga muito especial na época, a LetÃcia, e uma outra, a Ju – que tinha sido minha colega no colégio marista.
Este ano foi intenso e bacana. Lembro ainda da querida professora de Português e Literatura me dizendo na formatura: “todas as portas estão abertas”. Sem esquecer as maravilhosas professoras de Matemática e Genética.
Enfim…
Em casa eu comecei a descobrir que ao pensar em homens eu me sentia estimulado. No inÃcio eu tinha comigo que nada acontecia. Depois eu me coloquei pra mim mesmo como bissexual… Mas sem intuito de ficar com homens senão na cabeça. Até que chegou o dia, dentro de mim, que não deu pra negar que eu realmente era diferente. Que eu era gay.
Essa época foi dura, por não ter ninguém com quem compartilhar. Eu sentia muita vergonha de mim mesmo. Pensava no meu pai (que havia se suicidado em 96), e em como ele sentiria desgosto por mim. Às vezes pedia perdão a Deus e a ele enquanto rezava e chorava trancado no banheiro.
Também foi neste tempo que eu vi que ao pensar no Y eu sentia uma atração, que não era sexual – porque isso era tabu pra mim a ponto de eu não sentir – e sim atração emocional. Foi por conta da emoção, do “amor” que eu vi que eu era gay, pois nunca tinha sentido isso tão forte por alguém antes. Embora tivesse tido um rolinho aos 12 com uma menina, que nem beijo teve. Era diferente então.
Só que meu auto-preconceito era tanto que eu fiz um pacto comigo mesmo. Eu nunca tentaria nada com ninguém porque sendo o Y um rapaz “normal”, eu não queria arruinar a vida dele – não tinha esse direito de trazer algo que ele poderia querer e partir por um caminho errado (uma presunção bem grande minha também, né). E também eu tinha tanta vergonha do meu corpo (como ainda tenho um bocado), que eu achava que jamais poderia ter envolvimento sexual com alguém… E nem imaginava como seria sexo entre dois homens. Era estranho. Não conseguia nem a imagem na cabeça – e na internet muito menos, aquela época era foda a não ser pelo bate-papo de imagens do UOL. Mas eu não compreendia como um podia “comer” o outro. Como era a coisa na prática. Então isso também me preocupava, me ansiava.
E tendo beijado antes uma menina, e sentido nojo quando era menor, eu agora me sentia brutalmente triste por me sentir condenado a ficar só. E também porque o beijo que eu desejava eu não podia ter.
Os meses se passaram, minha bisavó também falecera no meio de 2001.
Teve um dia que as turmas de terceiro ano da nossa escola e de outra se reuniram para uma palestra sobre aquecimento global. Efeito estufa na verdade, algo bem aparentemente diáfano na época. Nunca mais havia falado com Y… Cheguei, uma multidão no auditório. Sento-me e logo quem vejo? Ele. E sentamos um do lado do outro.
Conversei com ele, como nunca tinha feito. Falei que pretendia cursar Arquitetura e ele me falou que adoraria ter uma casa de frente pro mar – que ele achava muito legal – e que então eu projetaria a casa dele. E então antes do fim ele disse: “Vamos embora?“. E é aà que a minha história não termina. Eu disse que ia ficar.
Eu estava tão feliz, mas tão feliz com o que sentia, que eu estava nas nuvens… Não queria ir, queria ficar. Estava no ápice já!
Depois disso, eu não o vi mais. Ele não foi na formatura e ficou uma lacuna. No verão ainda o vi de longe e nem tive coragem de falar com ele. Ficava na expectativa de sair um dia de noite e falar com ele…
Nessa época eu buscava no Espiritismo um consolo e orientação pro meu caso. E Deus, como me fazia sofrer, sangrar por dentro, ler nos sites que o HomossexualISMO era uma desordem que poderia até ser tratada com passes. Que deveria ser corrigida pelos pais na infância… Que homossexuais não poderiam de forma alguma participar dos trabalhos mediúnicos pela sua natureza desordenada. E eu acreditava nisso, nesses homens que se diziam médiuns e escritores. E como chorei e sofri! Tentando me conformar com meu destino sozinho.
Eu olhava pra lua e pedia que já que eu não podia ficar com ele, que ele fosse feliz. E foi pra tentar viver esse amor, pelo menos em sonho, que eu escrevi Cidade do Anjo, inspirando o amor dos personagens principais – pelo menos naquela versão – no amor que eu sentia.
Às vezes eu fechava meus olhos deitado, e imaginava nós dois nos encontrando na praia vazia lá perto da cidade que eu vivia. E ele falava comigo, me dava conselhos, me confortava… E isso me dava conforto. Eu tinha pânico de qualquer coisa que pudesse me identificar como homossexual, ou qualquer possibilidade de ter alguma coisa com alguém.
Ao longo dos dois anos seguintes eu fiz cursinho, entrei na Arquitetura… Conheci o Pablo, meu amado amigo gay. Só ele sabe como eu era. Assexuado, assustado, reprimido. Nos anos seguintes entrei em depressão. Em todo esse tempo embora eu conhecesse pessoas, eu não conseguia esquecer o que senti por Y. Não conseguia superar. Ia pra casa, e pensava nele, e não sabia onde estava… Eu tinha até o número de telefone dele e sempre adiava a ligação, com medo, com auto-reprovação.
Até que com a depressão, e o tratamento primeiro com a psiquiatra na cidade que fiz faculdade, em Pel otas, eu me senti encorajado a procurar ele. Depois de várias discadas e desligadas eu liguei… A mãe dele atendeu. Expliquei que era um ex-colega e que gostaria de falar com o Y. Bem, ele não estava… Deixei meu nome e desliguei. Num outro ato surpeendente outra semana tornei a ligar… Pois creio que disse que ligava noutro momento. Estava então em casa, no final de semana, não em Pel. E aà a mãe dele atendeu, disse-me que ele não estava, que tinha ido a POA passar o findi com a namoradA e que não lembrava de nenhum Rafael.
Naquele dia eu me escorei na guarda do sofá e chorei bastante.
Nunca mais fui atrás dele. Depois quando Dany e eu fizemos amizade através do meu ex, descobri que ele morava perto dela. Cheguei a vê-lo algumas vezes na frente de sua casa próximo ao hospital… O mesmo jeito, com o rosto mais maduro, entradas mais salientes nos cabelos. Mas pra mim, lindo, como há anos antes.
O apoio que tinha vinha do Pablo. Em casa as cobranças eram fortes para que eu me mantivesse dentro de parâmetros aceitáveis pela unidade familiar (do corte de cabelo à manifestação de tristeza). Meus momentos de triste incomodavam muito. Comecei a sair em boate GLS no final de 2004, quando houve meu primeiro beijo com homem antes… E foi com este amigo. Aà então em envolvi com outros meninos, me apaixonei e desapaixonei, vivi intrigas, etc. Até cair em depressão profunda com os pulsos e o corpo cortados por estilete e desejando sumir da face da Terra sem saber o que fazer da vida. Eu não gostava da Arquitetura e deixava meu destino nas mãos dos outros, sem ter posicionamento, firmeza comigo mesmo.
A espiritualidade sempre foi meu refúgio, minha força. Graças a Deus amadureci e desenvolvi minha sensibilidade… Encontrei outras informações, participei de trabalhos. Criei novas histórias… E desenvolvi laços com pessoas que abandonei para trás junto com Arquitetura. Dói imensamente amar aquela época difÃcil e saber que nada dela existe a não ser em minha memória. Os colegas formados, já não estão lá. O Pablo já não está lá. E eu já não tenho 16 anos e nem sou o mais novinho da turma.
Eu sinto agora, enquanto escrevo este gosto amargo, este aperto na garganta. Que tristeza!
Se eu me relacionei com um ideal, pode ser… Mas amei aquele menino. Nossa. Uma rara vez encontrei o orkut dele aqui já em SC. Lá ele estava noivo, foto com uma moça, e participando do Corpo de Bombeiros em POA. Sorri… Deixei para trás. Mas admito que toda esta história me marcou muito.
Eu me sinto insatisfeito ao olhar para trás, e me perguntar “e se eu tivesse sido mais próximo? e se eu tivesse saÃdo com ele daquela palestra?”. Eu não sei. Infelizmente.
Hoje em dia o tipo de menino que me atrai lembra muito ele, com outros toques. Cabelo mais claro, másculos, aparentemente seguros de si, afáveis, fortes em ambos os sentidos… Ser médico é sonho demais, admito até. Mas ser apaixonado pelo que faz, estuda. Mas o interessante é que eu nunca encontrei nada disso. Quando encontrei eram heterossexuais… Ou quando vi eu não me aproximei por esse medo, de achar que não seria correspondido porque penso no meu corpo como um lixo.
[suspiro]
Custoso pra mim relembrar esse tempo, esse sofrimento, mas senti que seria bom tirar de dentro de mim e dividir. Ainda gostaria de um dia encontrar esse menino e falar com ele, e dizer dentro de mim “é, realmente, nada a ver, sem chance”. Assim como quero viver um dia em que eu vou me sentir à vontade de me despir na frente de alguém, seja pra desejar sexo, seja pra ser atendido com uma massagem em aula por exemplo.
Parece que no fundinho de mim… Ainda mora aquele menino gordo, anti-social, desajeitado, extremamente sensÃvel e machucado, que quer amor. E que não sabe o que fazer, que é triste… Que se acha um lixo por ser como é. E fora de mim a vida continua lembrando que eu agora estou mais velho.
Meu primeiro amor… Platônico, mas principalmente… Lacônico.