As aulas acabaram, a mal passada uma semana, estou entediado. Na verdade até teria umas coisas bárbaras pra fazer – como por exemplo faxinar apartamento, organizar papéis, planejar uma estratégia de volta pra casa – mas nada disso me atrai.
Enquanto eu estudava pra Neurofisiologia, descobri que existe um transtorno alimentar que atende pela sigla TCAP (clique para ler sobre ele). O “Transtorno da Compulsão Alimentar Periódica” é um transtorno tão transtorno quanto uma bulimia ou anorexia. Mas no Brasil ele é conhecido popularmente como “falta de vergonha na cara“.
Desde o início me identifiquei nos parâmetros de classificação, até porque tenho lidado freqüentemente e com muita intensidade com eles nos últimos tempos. Comer até ficar cheio infelizmente se tornou uma constante na minha vida no último semestre… Com isso começaram a vir os kilos a mais.
Você percebe que está mais gordo primeiramente no espelho e em fotos. Em segundo lugar, quando vai se fazer de vítima e as pessoas não negam mais que você está gordo e procuram te consolar sem tocar no assunto… E em terceiro lugar, talvez o mais dramático, quando suas roupas não ficam mais ajustadas em você.
Pra mim é um drama corriqueiro não conseguir sair desse círculo vicioso. Da última e mais recente vez que consegui me controlar, novamente a frase “O Rafael tá mais magro, né?”, desencadeou rapidamente um efeito-estufa na minha barriga.
Ontem foi o primeiro dia em meio a muitos que consegui me manter com a alimentação de uma pessoa normal. Almocei sem excessos, salada incluída, e à tarde comi um sanduíche natural com uma latinha de coca… Nestes intervalos uns 4 pedacinhos de chocolate.
Quando a noite chegou, acho que devo ter tido alguma espécie de crise de abstinência. A princípio eu pensei em tudo que poderia comer, ir no posto aqui perto, ou ligar pra algum lanche, enfim. Depois, comecei a ficar deprimido, nervoso e irritado, e triste… E dava vontade de quebrar tudo dentro de casa… Quando passou me vi sofrendo por coisas com meu namorado, e finalmente com a falta de auto-estima, todas as vezes que não fui na praia por vergonha da gordura e dos pêlos, e pelas frustrações acumuladas.
Apesar disso fiquei firme e não comi, até porque não tava com fome. Dormir à noite foi horrível, sonhei com um lobisomem rondando uma casa, e as velas de 7 dias acesas lá dentro não resistiam ao vento frio que entrava eventualmente pela porta. Acordava, dormia, a cabeça a mil.
Agora pela manhã decidi que iria ao mercado, ia comprar várias coisas pro final de semana. Porém no caminho, com uma máquina de lavar dentro do cérebro, não tinha paz na mente. Logo queria ir na padaria comprar comida, ainda sem fome, e quando deixei de dar ouvido a isso vi que nem sabia o que ia comprar no mercado… E que não tava a fim de comer. Me senti super mal, e logo aquelas questões do fim da noite vieram à cabeça de novo. Comprei cebolas, tomates, um caldo de tempero pra arroz, e uma água de côco – em lugar do sanduíche que tinha intencionado (ainda não tomei ela).
Quando me pego assim no desespero, vejo que nessa crise fico com ansiedade. A ansiedade é como não conseguir deixar de reagir à espera de algo estressante ou importante. Só que não vejo nada desse tipo, talvez por isso mesmo eu sinta.
Se eu não comer, ou não pensar em comida, no que vou pensar, ou o que vou fazer?
Pelas minhas fotos vi que até os 4 anos de idade eu era uma criança magra, mas depois disso fui engordando intensivamente ao longo dos anos. Não sei se pode haver uma relação, nem lembro o que essa época pode esconder. Só sei que me sinto triste.
O mundo hoje certamente não considera os gordos. E se considera, o faz com maldade ou humor. Também levantar a bandeira das causas gordas não vai resolver problema de ninguém. Também, sabe-se lá qual problema pode ser este.
E já faz 1 semana que borboletas entram no meu caminho, só hoje foram 3.
Só sei que tô com medo de engordar, e ao mesmo tempo com medo de comer, e ao mesmo tempo com medo de não comer e passar por uma compulsão.
Difícil expor coisas tão pessoais, mas acho que eu precisava falar disso.