
Bem, aconteceu que nestes últimos dias soube de um caso na minha família de um certo homem que, nos momentos em que estava sozinho, se vestia de mulher – algo que se diria ser um tipo de crossdressing.
Ele não é homossexual, tem um relacionamento estável faz muitos anos e relatou que desde pequeno passava por estes episódios. O último teria sido no verão passado, e devido à angústia e ao estresse de outras situações que se desenrolaram ao longo dos meses, achou que precisava de ajuda pra lidar com o mal-estar, e depois acreditou que revelar isso à cunhada e à namorada, lhe seria um sinônimo de melhora.
Bem, caso é que estas pessoas, estas mulheres, assim como eu, tiveram uma criação machista. Porém, como tudo na vida, existe um pequeno limiar que Sartre definiu muito bem: “Não importa o que fizeram do homem. O que importa é o que o homem faz daquilo que fizeram dele.”
Tenho visto que as pessoas têm em geral um preconceito muito arraigado de que um indivíduo que se vista de mulher (ou uma mulher que se vista com roupas de homem), raramente ou dirariamente - não importa, será necessariamente homossexual. Tudo isto é um fruto da sociedade patriarcal, onde é valorizado um comportamento que se alinhe aos valores considerados masculinos.
A velha história da mulher ter de ser delicada, submissa, emotiva, etc. e o homem ter de ser durão, ativo, forte. Isso sem falar nos valores estéticos, que hoje em dia também são apresentados e incutidos.
Um típico comentário com recheio preconceituoso que não parece é aquele que diz “tá, tu pode ser gay, mas não precisa ser afeminado”. Em primeiro lugar, o detalhezinha do pode parece que demonstra a condição da pessoa pra aceitar a orientação sexual do outro – quanto menos afeminado ele for, menos me lembra que é gay. Em segundo lugar, o afeminado mais uma vez é visto como algo somente negativo – nunca se cogita as qualidades que alguém mais afeminado possa ter, além do que, o que se considera como defeito pela sociedade, nem por isso será na essência um defeito.
Voltando ao caso familiar, a namorada se sentiu traída, pois em tanto tempo nunca desconfiou, e sabendo que suas roupas e maquiagem eram usadas, entrou em surto. As demais, tentam dar-lhe apoio pelo seu “sofrimento“, e conceituam por doença o que na verdade é uma tendência comportamental, uma maneira de ser, um gosto ou até mesmo uma necessidade.
O que vejo é a namorada cobrando o namorado para que ele nunca mais faça isso. O namorado fugindo dos problemas, não procurando também ser compreensivo consigo mesmo. As pessoas ao redor tomando as dores e agindo com preconceito, com ignorância e sem imparcialidade.
Tenho de confessar que não tenho pena desta namorada. Até me solidarizo pelo sentimento que é difícil de enfrentar e se compara ao experimentados por aqueles que convivem com gays que de repente se assumem – de repente eles sentem como se não conhecessem mais aquele filho, amigo, parente, parecem estar na frente de um estranho que traiu por não contar nada.
Porém, devo dizer que, como em muitos casos, o sofrimento maior nasce da ignorância das próprias pessoas. Se você é preconceituoso com as coisas, as coisas não necessariamente vão sofrer ou mudar pelo que você acha, porém a própria pessoa é que se causa um enorme caos porque de repente não consegue se apegar mais ao amor do que a seus valores, por vezes conservadores. Enquanto cobra, é cobrada; está presa nas suas próprias conceitualizações sem se abrir. Parar de sofrer compete a querer seguir em frente na sua evolução espiritual (aproveitar as oportunidades da vida para se melhorar como indivíduo) – alguém lembrou do que, e como, a coisa ocorre nos umbrais?
Não são poucos os casos dos homens que se vestem com peças femininas, sendo heterossexuais, e que o fazem até mesmo em fantasias com suas parceiras ou em momentos nos quais se encontram sozinhos. Alguns se perfazem de drag queens, e a lista só cresce. O que acontece é que uma vez que a cultura machista considera como normal apenas a polaridade homem x mulher como única forma natural de orientação sexual, logo tudo que possa o homem apresentar do lado da mulher – alguma característica – lhe põe como homossexual, ou no termo mais comumente usado pelos colegas heterossexistas (adeptos da teoria), “viado”.
Não nos deixemos enganar também, que vítimas de preconceito sejam por si só mais elevadas.
Os próprios homossexuais muitas vezes se dividem e se atacam, ou então têm atitude preconceituosa em relação aos outros – heterossexuais, afeminados e principalmente os bissexuais – que também entram na tendência julgadora do “tem que ser isto ou tem que ser aquilo, tem que ser ‘homem’ ou tem que ser ‘mulher’”.
E leia-se por homem: Ativo e másculo.
Por conseqüência de na sua criação não experimentarem os valores e atitudes considerados femininos, muitos homens acabam por “recalcar”. A alma, porém, não é masculina e nem feminina, portanto os valores que menciono também em essência não são… A alma tende à totalidade, a uma nuance de feminino completando e se confundindo com o masculino.
O feminino porém anseia por sair, e como ele sai?
Já que a pessoa não vivencia àquila à sua forma, do seu jeitinho pessoal (como se fosse tunar as características à sua essência e não ao seu papel imposto), aquilo será colocado em algo externo e de maneira incosciente (sen pensar no porquê ou como acontece) – uma admiração muito forte (quase um endeusamento) por uma mulher famosa ou uma amiga, uma irmã, uma mãe, avó, etc. – vestir peças femininas na tentativa de experimentar aquilo sendo momentaneamente um andrógino ou uma mulher, tendo este direito. – manifestações artísticas, culturais, etc.
A mesma coisa ocorre com as mulheres, porém nelas acaba havendo a idelização do homem – principalmente do parceiro.
Uma vez que precisamos conhecer e juntar os pedacinhos do nosso jeito pessoal, qualquer relação ou vivência que não permita esta possibilidade, estará fadada ao abalo.
Se a energia feminina não for aceita e agregada no homem, logo tem-se por aí esse índice absurdo de infartos e problemas cardíacos em jovens, adultos e idosos. Isso porque uma das coisas que o Patriarcado considera como feminino é a “emotividade”, e ela em energia se refere ao Chakra Cardíaco – logo, ao coração. Demonstrar amor, apreciar o belo, gostar do belo, desejar o belo, afabilidade, doçura, delicadeza, gentileza, receptividade, calor humano… Tudo isso são ótimos remédios, pena que muita gente não se permite.
Recado dado, espero que as pessoas ainda possam melhorar um pouco mais. Eu me incluo nisso também, pois às vezes fico bem indignado! (e preciso pegar mais leve pelo bem do meu fígado e do meu cérebro)
Mais uma vez bato na mesma tecla: Seria bom se no mundo as pessoas aprendessem a conhecer a natureza do outro e se respeitar, seja os pais com os filhos, filhos com os pais, entre amigos, entre amados. Haveria menos violência, talvez, e mais realização pessoal.
Falei demais.
P.S.: Alguém se deu conta de que o casal gay daquela nova das 21h que passou recentemente, só foi bem aceito justamente porque não parecia gay segundo a opinião pública? Eram “homem normal”?