Tava indo dormir, mas resolvi voltar pra escrever de novo.
Hoje de noitezinha, meu namorado me mandou uma mensagem dizendo que pretendia contar pra mãe dele que era gay, e que faria isso hoje porque estariam só os dois. Perguntou o que eu achava…
Respondi que ele precisava consultar o coração dele, saber se ele sentia que era o momento. Comentei que antes de falar pra minha mãe, passei algum tempo preparando terreno, tentando conhecer, falando algo aqui e ali. Mas ele estava decidido.
Não sei exatamente como foi porque ele não me ligou de noite, mas mandou mensagem que tinha falado sim. Um pouco antes disso eu comecei a sentir uma angústia no peito.
Depois que cheguei em casa, pois estava na casa da Lu conversando – coisa que não fazia a um bom tempo, escrevi pra ele e ele respondeu que tava bem, mas que não conseguia dormir, etc. Depois de mais um tempo mandou mensagem dizendo que tava mais aliviado mas com um peso no peito – aí entendi o porquê de eu ter sentido.
Engraçado que quando tu conta pra tua mãe, ou pra pessoa que tu planeja, geralmente tu precisa criar muita coragem, especialmente se isso é algo novo pra ti. Você fala, e logo sente um alívio acompanhado de uma incerteza…
É a mesma coisa quando você descobre algo de alguém, às vezes quando é muito íntimo fica o sentimento de que você não conhece mais aquela pessoa ali na sua frente. Assim ficam pais e amigos com relação a nós, muitas vezes. E aí inicia uma fase de re-conhecimento.
Muitas vezes esse “re-conhecimento” gera uma renovação positiva das relações, com uma humanização do outro e o desapego aos papéis impostos pela tradição familiar ou sociedade. Mesmo os auto-impostos… Como se, ao se revelar, em fraqueza e força, tu te tornasse mais humano e portanto mais próximo daquele que está ali, e este se torna mais à vontade pra expor a si mesmo.
Em outros casos, também, sabemos que as pessoas não aceitam o outro como gay, se revoltam… E se tu não está muito certo, não se sente afirmado ou seguro, forte, para se valorizar e dar a mão pra si mesmo, pode acabar entrando em várias ondas de culpa ou de tentativa de “cura”.
Acho que estas pessoas que se revoltam tanto, criam expectativas muito altas… E fogem tanto da pureza do sentimento, para não ter de encarar a si mesmas.
Graças a Deus com minha mãe foi tranqüilo, mas com minhas irmãs foi um pouco mais difícil este processo. No fim das contas, existem coisas muito mais importantes, e o que importa é o bem-estar e a felicidade de quem se ama, ou pelo menos deveria ser assim.
Acho muito delicado ter de contar aos pais ou responsáveis sobre sua orientação sexual. Isso é algo que poderia ser desnecessário se ao invés de sonharem com seus filhos formados médicos, os pais aprendessem a esperar para conhecer aquele ser que está se formando, nascendo e crescendo…
Ao invés de fantasiar, dar voz ao filho. Estar sempre presente para guiá-lo sem imperativos, com jeitinho, com um zelo que lhe conceda certa liberdade. Seria tão bom se crescêssemos sem culpa pelo que somos, e nossos pais respeitassem e nos orientassem para viver uma vida digna e de bondade. Isto deveria ser educação.
Infelizmente não é assim e não apenas nós nos ressentimos ao nos depararmos com uma inadequação aos padrões, como sabemos que nossos pais escondem de si e de todos seu lado humano – falível e “pecaminoso”. Idealizamos sua imagem, somos idealizados por eles – em geral. Não aprendemos a vê-los…
Se mostram fraqueza ou “defeito”, muitos estabelecem uma barreira de inquestionável; do “sou assim e não vou mudar“. Impérios de eu mando, eu sustento, na minha casa, sob o meu teto, etc. Tudo pra esconder sua sombra, para não ter vergonha ou sentir tristeza e também culpa.
Outro quesito que pesa é “o que os outros vão pensar?“. Pensamos muito nisso, não apenas no sentido de demonstrar orientação sexual. Somos muito preocupados em sermos os bonzinhos, os lindinhos, os amadinhos por todos… Tudo pra ganhar elogio e aplauso. Pra conquistar respeito e admiração… Só que estas são duas coisas que não se compra, nem se pede ou barganha: É algo que a alma e a presença por si só são capazes de emanar.
Muita gente por aí está criando seus filhos pra bonito. Pra ser lindo aos olhos do mundo, pra ser como um bichinho sócio do Pet Shop: Ter todos os acessórios da moda, o pêlo mais bonito, o melhor isso, o melhor aquilo, etc. E cobram dos pequenos uma maturidade adulta que só existe na ficção e em novelas, ou filmes – e que hoje é raro até mesmo nos ditos adultos.
Um mundo melhor não vai nascer de atitudes extremistas. Uma nova realidade ou maneira de pensar não vão surgir por imposição de idéias aparentemente corretas, ou politicamente corretas… As coisas só vão realmente funcionar quando as pessoas passarem a sentir o que é certo como sendo realmente certo. Uma verdade nunca funciona se você não sentir que realmente seja verdade, por mais pensamento lógico aplicado que exista na sua cabeça a respeito dela.
Pra demonstrar ao mundo algo bom, é preciso não apenas aprender a valorizar o que realmente faz bem, mas também como viver isto, sentir isso, emanar isso naturalmente, sem guerras.
Odeio o termo “guerra contra …”. A vida precisa de paz e de harmonia, de compreensão, respeito por quem erra, e também respeito por quem sabemos estar numa linha de pensar que julga certo e que julgamos ser errado. Guerra implica idéia de combate, ferocidade, morte, dificuldade, perda, opressão, dor… E não estamos aqui pra isso, não precisamos ir apenas por este caminho pra aprender algo.
Ao invés de Guerra, união… Comprometimento, compreensão, divulgação, respeito. Pena que isso soa muito utópico, e que na vida real ainda existe muita gente combatendo a tudo, e se ferindo demais. Assim como aqueles que estão no poder ainda pensam assim… Ainda que cada povo tenha o governo que mereça.
Não temos bons exemplos… Não temos inspiração para a bondade.
Aff, quanta filosofia de buteco.
Só sei que seria ótimo se as pessoas soubessem se conhecer, seja entre amigos, seja entre pais e filhos, sem ficar criando tanta expectativa e pré-conceitos. Mas queremos sempre estar adiante, sempre pondo o outro nas nossas mãos pra ele nos satisfazer… Como é frágil este laço que une os homens e se rompe num simples desentendimento.
Às vezes agradeço a Deus, sem palavras, apenas na oração silenciosa do viver meu dia-a-dia, por ter nascido gay e por ter passado por tudo que passei sendo assim e sendo outras coisas também – porque não sou só sexo ou sexualidade – e ter chegado até aqui. Porque tudo isso me ajudou e ajuda a ver e a pensar no mundo e na vida com olhos mais reflexivos.
Pais, conheçam seus filhos. Filhos, conheçam seus pais. Dêem voz uns aos outros, dêem chance pra sair dos papéis pré-supostos e serem mais “ser humano”.
p.s.: Ponto Zero atualizado!